Pós Punk – morte à new wave

Joy Division

Os punks tinham determinado as novas regras do jogo; tinham dinamitado a ponte que durante décadas, séculos até, impediu o acesso do público ouvinte ao privilegiado palco, onde músicos redundavam cada vez mais a sua “arte”. Não, agora a orientação era outra. Ninguém queria saber mais das tradicionais e castrantes aulas de música. Ninguém mais poderia limitar os territórios a serem explorados. Sem pré-requisitos, sem maiores conhecimentos musicais, apenas movido pela vontade de tocar e criar, despertada pelas mais variadas razões, qualquer um poderia ser músico.

Para o rock, o punk tinha sido algo como um anticristo, que passou rapidamente pela Terra, deixando um crescente contingente de seguidores ou admiradores de sua ideologia iconoclasta. Em seguida, enveredando pelos mais variados caminhos, ocupando e explorando os mais virgens territórios, seguiam os jovens de cabeça feita em busca de aventura e experiências excitantes. É este, mais ou menos, o espírito reinante em 78, quando é decretada a morte do movimento, um ano após o seu nascimento. Este novo momento, em que dezenas de bandas saem por rumos totalmente opostos e diferentes, só pode ser chamado de pós-punk, uma continuidade da new wave e sua última grande fase fértil.

Evidentemente, havia, dentre as bandas que começaram no punk, algumas poucas que foram capazes de entender perfeitamente a situação e de acompanhar o novo processo de constantes transformações. Foi o caso dos Stranglers (banda mais duradoura dessas todas, hoje completando doze anos de atividade, com a mesma formação), do Wire (mestres na experimentação, hoje especializados em samplers), Siouxie and the Banshees, Clash (que enveredou pelo reggae e funk) e o Jam (depois de mod, veio o flerte com o soul e a Motown, e deu no Style Council).

U2

Das bandas que se consagraram um pouco mais tarde, a partir de 78, as mais importantes e influenciadoras seguem em ordem alfabética…

A Certain Ratio

Banda de Manchester, formada em 77. No início, eram três rapazes. Com a entrada do baterista Donald Johnson, eles passaram a se interessar por ritmos latinos e funk. A mistura deles é “quente”: ritmos trabalhados, guitarras e vozes dissonantes, acordes esparsos, melodias discretas – quase inexistentes. O álbum Sextet (81) dá uma boa noção de como soa esta salada.

Associates

Banda escocesa de dois integrantes, Billy McKenzie (vocais) e Alan Rankine (instrumentos), que começou mesclando vocais líricos em vários planos distribuídos num instrumental pesado e bem pontuado. O LP de estreia deles é brilhante, e conta com uma pequena participação vocal de Robert Smith (Cure). Mais tarde, eles viraram uma banda convencional de tecnopop.

Au Pairs

Banda pouco famosa e de curta existência, que fazia um som leve e pop, na linha do Cure. Entretanto, foram importantes em alguns aspectos: faziam boas composições, suas apresentações eram vibrantes e as letras (cantadas e escritas por Leslie Woods) eram feministas.

The Cure

Birthday Party

Grupo australiano liderado por Nick Cave. Eles se deram bem quando se mandaram por conta própria para a Inglaterra. A tônica deles era o barulho, zumbido, zoeira, demência total, tudo isso ancorado nos sincopados andamentos do baixo e da bateria. Uma grande banda que acabou no momento certo: de suas cinzas, nasceram Nick Cave & the Bad Seeds e Crime & the City Solution.

Cure

O que os diferenciava era a ênfase na guitarra rítmica de Robert Smith e sua voz lamuriosa. O pique de garage band (acentuado pelos ágeis beats da guitarra) também ajudava. Depois entraram numa fase meio depressiva, onde criaram belos climas pesados, bem densos. Foram mais influentes nessa fase (onde começavam a usar teclados). O LP Seventeen Seconds, pouco conhecido por aqui, é o disco chave desta concepção.

Dexys Midnight Runners

O primeiro LP deste (originalmente) octeto foi um dos pioneiros na exploração pós-punk da soul music americana. O segundo LP é totalmente diferente nas referências (atacam de folk music irlandesa), sem perder o embalo contagiante do anterior. O responsável pelas tomadas resolutas de direções opostas é o líder do grupo, Kevin Rowland.

Echo & The Bunnymen

Durutti Column

E um grupo de uma pessoa só: o guitarrista / pianista / cantor Vini Reilly. A exemplo do Joy Division, o grupo é de Manchester e foi um dos primeiros a entrar nos planos da gravadora Factory. Seus discos têm diferenças nas condições de gravação (um foi gravado num estúdio portátil, outro em Portugal, outro ao vivo etc.) e instrumentação (o baterista Bruce Mitchell participa a partir do segundo LP, sax e sopros entram nos últimos), mas as composições e texturas criadas pela guitarra melódica de Reilly apontam em direções difíceis de definir. É melhor nem se atrever, para não cometer besteiras, como falar em “new age music”.

Echo & The Bunnymen

Quando vieram ao Brasil, não deixaram dúvidas sobre suas preferências musicais e sobre as áreas que exploram. O negócio deles é west coast (Byrds, Doors e Love), bandas de Nova York (Television, Velvet Underground) e as fases mais psicodélicas de Beatles e Pink Floyd. As guitarras esparsas e viajantes de Will Sargeant e os vocais e letras depressivas / debochadas de Ian McCullogh são marcas registradas. São pioneiros do neopsicodelismo.

Fall

Mais um de Manchester. O Fall está na ativa desde 77, só que, ao contrário da maioria dos seus conterrâneos, pouco mudou depois de todos estes anos, apesar das várias formações. O Fall, sempre liderado pelo cantor / letrista Mark E. Smith, foi várias vezes comparado ao Velvet Underground, pela sua lassidão instrumental (parece que ninguém sabe tocar seus instrumentos) e pela compensação em ruídos e distorções. As letras do Smith são um caso à parte: ele brinca, inverte, dá novas formas e conteúdos à língua inglesa, criando imagens totalmente inusitadas ou sem significado. Lançaram mais de quinze LPs.

John Lydon (PIL)

Gang of Four

Uma das mais influentes bandas do pós-punk, principalmente pela consistente exploração de ritmos sincopados e pela utilização da guitarra distorcida, pesada, como instrumento rítmico. No seu primeiro LP (o importantíssimo Entertainment) eles soam rápidos, secos, na mais pura concepção punk. Só que apontam (com brilho) para os caminhos que viriam a culminar no disco-funk, a partir do 3º LP, Songs from the Free.

Joe Jackson

Eis aí um dos grandes precursores do new pop. Jackson sempre fez canções bem pop, sem maiores inovações, e sempre se referenciou em ritmos dançantes. “pra cima”, sem no entanto cair no vulgar. Mais tarde, começou a flertar com o jazz, ritmos latinos, cha cha cha e por aí afora.

Joy Division

O romantismo na versão energética e apaixonada, que só mesmo o punk poderia materializar. Os vocais agonizantes do suicida Ian Curtis e os instrumentos gélidos e raçudos do pessoal que mais tarde formaria o New Order modificaram os conceitos da época. Em 80, pouco depois da morte de Curtis, lançaram Closer, um clássico, um disco tão influente que já deixou até marcas no rock nacional mesmo tendo sido lançado aqui recentemente.

Simple Minds

Killing Joke

Eles começaram fortemente influenciados por ritmos jamaicanos, e depois entraram de cabeça na fase hard, para se tornar um dos grupos mais pesados da época. Não chegam a ser heavy metal, por causa de alguns elementos largamente explorados no pós-punk: bateria tribal, baixo sincopado meio funky e a quase ausência de solos e melodias, formando uma massa bem dissonante.

League of Gentlemen

Tentativa de Robert Fripp (guitarrista / líder do King Crimson) de formar uma banda com um som “dançante”, bem influenciado pelas bandas americanas. O resultado é único: imaginem as concepções minimais / experimentais dos frippertronics (adaptações montadas com séries eletrônicas, pedais, seqüenciadores), os teclados esquisitos de Barry Andrews (ex-XTC, mais tarde no Shriekback), tudo isso ancorado nos beats dançantes montados por Sarah Lee (baixista, depois no Gang of Four) e Johnny Toobad (baterista). Lançaram só um LP, em 81, e depois e grupo acabou.

Magazine

Grupo de heavy pop, fundado pelo ex-vocalista dos Buzzcocks, Howard Devoto, Barry Adamson (baixo), John McGeogh (guitarra), John Doyle (bateria) e Dave Formula (teclados), acabariam envolvidos em outros projetos posteriores não é a toa, pois todos eram excelentes músicos (como Visage, Siouxsie, Bad Seeds e Armoury Show). O excelente LP Time Correct Use of Soap foi produzido por Martin Hannett, o produtor do Joy Division.

The Police

PIL

Antigrupo formado por John Lydon, depois que ele saiu dos Sex Pistols e declarou que o punk estava morto. Com Jah Wobble (baixista, ex-motorista de táxi), Keith Levene (excelente e criativo guitarrista) e Jim Walker (baterista), o Public Image Limited mantinha a agressividade e energia dos Pistols, só que voltado para um lado mais dissonante e denso. A inserção do grupo no mercado foi de uma abordagem conceitual brilhante. O primeiro LP chama-se First Issue (primeira edição), e remete a capas de revistas famosas. O segundo LP, Metal Box, foi originalmente lançado como caixa de metal que reunia compactos e depois virou um álbum duplo com outro título, Second Edition (Segunda Edição).

Police

Stcwart Copeland, Sting e Andv Summers, três veteranos, resolveram se unir em 77 para aproveitar a onda do reggae e da experimentação. Mesclaram padrões roqueiros com o ritmo mais popular da Jamaica, e conseguiram um resultado pesado e original, o que agradou a um grande contingente de curtidores dos mais variados gêneros, inclusive os progressivos (os três são músicos excelentes). Pelo seu potencial comercial, estiveram entre os primeiros grupos lançados no Brasil (anos mais tarde) como banda “new wave”.

Pop Group

Banda de curta duração, formada em Bristol. Suas músicas quase não tinham estrutura definida, lembrando os padrões rítmicos do Captam Beefheart, onde não havia andamento fixo. Os vocais apocalípticos de Mark Stewart, pianos e saxofones anárquicos e baixos bem pontuados são as principais características do grupo. Depois que eles acabaram, em 80, seus ex-integrantes formaram outras bandas importantes, como o Pigbag e o Rip Rig & Panic.

The Pretenders

Pretenders

A americana Chrissie Hynde montou uma banda inglesa. No início, apesar de alguns hits mais leves, faziam um som pesado e contagiante repleto de qualidades únicas como o vocal afinado e vigoroso de Chrissie, as guitarras cortantes do falecido Jim Honeyman-Scott e as baterias de Martin Chamhers (da escola de John Bonham). Os dois primeiros LPs deles são fundamentais.

Psychedelic Furs

Velvet Underground e David Bowie eram as grandes influências deles. O cantor Richard Butler, com sua voz rouca, realmente lembra Bowie e Lou Reed, mas a massa de guitarras está mais para o wall of sound de Phil Spector.

Simple Minds

O primeiro LP deles saiu em 79. Lembravam fortemente o Roxy Music, com seus teclados espaciais e dispersos, em canções bem pop. Depois, iniciaram uma interessante trajetória de experimentações e lançaram belíssimos discos, com ênfase nos instrumentais diferentes, meio progressivos, meio tecnopop. O método de trabalho de Jim Kerr (vocais), Charles Burchill (guitarras), Mike McNeil (teclados), Derek Forbess e Brian McGhee (bateria) reflete nas elaboradas melodias: gravam horas de jam sessions em ensaios, ouvem os tapes e selecionam os melhores momentos para montar uma composição.

The Birthday Party

Teardrop Explodes

Juntamente com o Echo & the Bunnymen, este foi um dos grupos que melhor soube “ler” a west coast music, psicodelismo e James Brown (quando este estava inventando o soul). O cérebro de tudo isso foi o cantor e guitarrista Julian Cope, que iniciou carreira solo depois do segundo LP do Teardrop Explodes.

U2

O LP de estreia desta banda de Dublin revelou ao mundo um grupo novo que esbanja vigor, peso e, ao mesmo tempo, um sensível senso melódico. Bono e Edge são os principais responsáveis pela façanha, a de equilibrar o pueril exibicionismo de fé e paixão das letras e da postura deles com as vigorosas interpretações vocais e instrumentais, sustentadas nos harmônicos das guitarras e na cozinha precisa e eficiente de Larry e Adam Clayton. Influências do U2: música irlandesa, Scott Walker, Television, Clash e Sex Pistols.

XTC

Grupo de craques em arranjos e conceitos de produção de estúdio. Nunca se deram muito bem ao vivo, e até abriram mão deste expediente. Andy Patridge (guitarras) e Colin Moulding (baixo) se revezam nos vocais e autorias das composições. Começaram em 77, e em 78 lançavam o primeiro LP. White Music, com roquinhos rápidos e bem feitos, sem maiores pretensões. Depois, a cada lançamento um disco, passaram a esbanjar uma rara sensibilidade nos arranjos, principalmente nos vocais lembrando as melhores coisas dos Beatles e de outros grupos antigos, nos timbres e sobreposições de guitarras, entradas e saídas de efeitos, tudo em nome do peso e da diversificação. O LP Black Sea (80) é o exemplo clássico, antes deles começarem a se ligar em folk inglês, temas orientais e outras referências bucólicas.

The Fall

Todas estas bandas apontaram caminhos. E mais ou menos a partir de 79/80 que algumas delas começam a se repetir ou a serem imitadas. O espírito de inovação, de exploração e busca de experiências não mais predomina. As “brasas do pós-punk” (ver no item Tecnopop) agora estavam começando a se apagar, para dar lugar a uma febre leve, alienada, enfeitada com cores, gestos, passos de dança, compromissada apenas com o balanço ritmado das ancas e dos topetes projetados sob cortes bem curtinhos.

Chegou a new wave que o resto do mundo viria a conhecer, apenas em seu formato comercial, criado, artificial… Usurpando o nome que tinha sido dado para abranger os trabalhos que contavam com a energia do punk e com o espírito de combate às redundâncias do rock progressivo em nome da vibração e da simplicidade do rock’n’roll, as gravadoras e grupos mais espertos se infiltravam no mercado internacional como integrantes do “movimento new wave”.

É assim que nós, no Brasil, tomamos contato com a “new wave”, oficialmente, bem numa época em que a verdadeira new wave, aquela que surgiu antes do punk, em Nova York, e depois seguiu paralelamente ao punk para se extinguir juntamente com o pós-punk, já tinha acabado.

Vini Reilly (The Durutti Column)

O que nós conhecemos (os trabalhos mais recentes e repetitivos do Devo, B-52’s, Police, Cars, Talking Heads, Nina Hagen, Go Go’s, Gary Numan, etc, etc) está longe de representar o que houve de importante e influente na produção musical da década passada, onde as gravadoras independentes proliferavam e nós passávamos pelo velho problema do atraso, medo e não aceitação das nossas gravadoras e mídia.

Resta lembrar que, no fim do pós-punk, começaram a surgir outros gêneros, todos descendentes da new wave, mas que tiveram uma certa participação na configuração do rock atual. Com vocês, o tecnopop, o new romantic, o two tone, o gótico, o new pop e o industrial…

Este blog é uma reprodução da edição especial da revista Bizz, publicada em 1987: “New Wave – tudo o que você devia saber e não tinha a quem perguntar”. Eu não tenho os direitos autorais e estou reproduzindo apenas para efeitos culturais. Qualquer coisa me chama no meu perfil no Twitter.

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora